sábado, 25 de agosto de 2007

Nem liberdade, nem igualdade (+ tolueno e the clash)

O elogio do chavismo parte de intelectuais militantes que figuram na constelação do Fórum Social Mundial. Em artigo recente, o sociólogo português Boaventura Sousa Santos abraçou a fórmula do “socialismo do século 21”, que “não quer repetir” os “erros e fracassos” do socialismo do século 20. Na sua visão, a entidade em vias de invenção reconhecerá a “legitimidade da diversidade de opiniões” e não incorporará a “figura sinistra do inimigo do povo”. Enquanto essas palavras eram escritas, como que para desmenti-las, o próprio Chávez definia os estudantes que se manifestavam contra o fechamento da RCTV como o “fogo aceso pelos EUA” para derrubar seu governo. Diante do desafio das manifestações de rua, o presidente venezuelano ameaçou liderar o povo numa “revolta jacobina”, desenhando no ar o espectro do Terror. A metáfora remete à Revolução Francesa, que é a “cidade” legítima da modernidade. A equação que 1789 nos legou conecta, em equilíbrio instável, as duas utopias paralelas da política contemporânea: liberdade e igualdade. A fonte da liberdade sacia a sede dos partidos liberais e conservadores, que depositam a sua fé na virtude do mercado e temem a tirania do Estado. A fonte da igualdade sacia os social-democratas, que denunciam o “horror econômico” e reescrevem sem cessar a cartilha do planejamento. A política democrática é um diálogo interminável entre as utopias concorrentes. O intercâmbio nunca acaba porque todos concordam que nenhuma das fontes deve secar. O comunismo nasceu da proposição de desconectar as utopias paralelas, sacrificando toda a liberdade no altar da igualdade perfeita. Essa revolta contra a “cidade” de 1789 não compreendeu, de início, as suas próprias implicações: Karl Marx e Rosa Luxemburgo dedicaram textos inspirados à defesa de uma liberdade sem adjetivos, que “é a essência do homem” (Marx) e “é sempre a liberdade daquele que pensa de modo diferente” (Luxemburgo). Mas, incontida, a perversão evoluiu rumo ao seu fim lógico e a liberdade foi definida como abominação. Stalin, Mao, Pol Pot e pilhas de cadáveres atestam o sentido histórico da proposição original. Como o “socialismo do século 21” se relaciona com a memória, ainda tão viva, dessa tragédia descomunal que Boaventura Sousa Santos descreve, candidamente, como uma coleção de “erros e fracassos”? Se, como asseveram os representantes da esquerda, a Venezuela chavista é um espelho aceitável da entidade em construção, os “novos socialistas” não passam de sombras patéticas, ainda que perigosas, de seus fracassados antecessores. O chavismo começou a atravessar seu Rubicão meses atrás, quando Chávez anunciou a edificação de um Partido Socialista Unido Venezuelano (PSUV). Na tradição comunista clássica, o partido dos revolucionários assalta o poder e, em seguida, se identifica ao Estado. Na versão chavista, é o próprio Estado que dá à luz um partido, no qual se aninham os revolucionários. O passo lógico seguinte, que ainda pode ser evitado, é privar a sociedade dos partidos que carecem da bênção santificadora do oficialismo. O significado do fechamento da RCTV deve ser interpretado nesse contexto. Reproduzindo quase literalmente os comunicados oficiais do governo de Caracas, o PT emitiu nota oficial de apoio ao ato de força e deputados do PSOL pronunciaram-se na mesma linha. Eles tentam iludir seus eleitores pelo recurso a argumentos formalistas de ocasião, mas conhecem bem a natureza daquilo que escolheram defender: na Venezuela, a liberdade vai se convertendo em privilégio do partido que é Estado. Na etapa atual, milícias chavistas mais ou menos irregulares auxiliam a polícia a calar os opositores. Na próxima, a polícia calará os chavistas que não aderirem ao partido “unido”. O inimigo do povo, como se sabe, é uma figura em permanente mutação. Entretanto, nem tudo no “socialismo do século 21” é reiteração dos “erros e fracassos” do socialismo do século 20. O Estado chavista almeja o monopólio político, mas foge da tentação ao monopólio econômico. Na Venezuela, ao lado das empresas estatais “estratégicas”, continua a vicejar a grande empresa privada, que se beneficia da euforia petrolífera e dos contratos de obras públicas. O acordo entre Chávez e Cisneros, o magnata mexicano que controla a rede Venevisión, é uma mensagem eloqüente. A nova elite do poder está dizendo à velha elite do dinheiro que existe um campo de interesses comuns. No socialismo do século 20, em nome da igualdade, os meios de produção foram transferidos para a propriedade do Estado e a liberdade econômica desapareceu junto com a liberdade política. As revoluções populares de 1989 na Europa Oriental restauraram a “cidade” construída dois séculos antes pela Revolução Francesa. As multidões que derrubaram o antigo regime do “socialismo real” insurgiam-se em nome da liberdade, na sua dupla dimensão inseparável. Os cidadãos do lado de lá da Cortina de Ferro exigiam o direito à palavra e à iniciativa: a liberdade de divergir e a liberdade de produzir. A esquerda que se reencontra na praça do “socialismo do século 21” não entendeu 1989, exatamente porque rejeita 1789. Ela pretende cindir a liberdade, conservando o direito à iniciativa mas suprimindo o direito à palavra. Hipnotizados pela Rússia e pela China, os “novos socialistas” querem demonstrar na Venezuela que autocracia e capitalismo podem andar juntos, repartindo as riquezas segundo regras emanadas do arbítrio e do privilégio. A sua pobre utopia não passa da degradação da utopia total e sanguinária do socialismo do século 20: ela promete um mundo sem liberdade e sem igualdade. Demétrio Magnoli

Eu sou uma pessoa que ajuda meus concorrentes. Não que eu seja fã do que o Demétrio Magnoli escreve, e nem que eu ache que tudo nesse mundo é culpa do Chávez, mas o texto não é só bom pra quem vai fazer vestibular, é pra quem não quer ficar sabendo só de notícias da Paris Hilton.
E ah! Sendo mais boazinha ainda:

Este é o Trinitrotolueno. TNT, metilbenzeno mais 3 grupos nitro. Vai cair no PAS.
Eu ainda gosto de química mesmo depois da tirada do meu professor do cursinho. Arg.

E sendo o cúmulo da bondade: Ouvi the clash ontem no landscape e lembrei de como eu gosto de "rock the casbah", por mais que pareça "lock the task bar" hehe.
Incrível como eu comecei a gostar da música com 14 anos, no tempo em que eu ouvia (do verbo NÃO OUÇO MAIS) fresno e achava (AVA!) bonito. Mas enfim, ontem eu fiquei felizinha quando tocou rock the casbah no landscape, e achei que, por direito, a música merecia um espaço no meu degenerado blog. Como eu não sei postar só a música, resolvi por o clipe que de tão ridículo é engraçado. Judeus e muçulmanos rockin' the casbah. Valeu, clash.




3 comentários:

Gabriel Nardi, muito prazer disse...

valeu pelo trinitrotolueno
mas escuta aqui
esse Demétrio Magnoli hein!
ô reaça!
quero dizer, vamos pensar nuns países "do lado de cá da cortina de ferro"? Os Bálcãs (antes pra lá, revoluções pra trazer pra cá), a África toda, Porto Rico (protetorado americano!!!), Colômbia, Equador, Peru. Agora compara com as condições sociais (e to falando das condições sociais REAIS, não as que a Veja publica) de Venezuela e Cuba. Hum...
E The Clash eh um barato

Anônimo disse...

Falta ele pedir o tatu do clipe pra presidente ;)

neto disse...

Falta ele pedir o tatu do clipe pra presidente ;)